Elipse. Alguns corações funcionam em forma de elipse. O dicionário vem a dizer que elipse é a supressão de algo subentendido. Alguns corações são elípticos. Batem à força de não bater um dia, aristotelicamente, metafisicamente, parou. Os corações batem porque ainda não alcançaram a perfeição. A perfeição é imóvel. A perfeição é cardíaca.
E na elipse cabem algumas metáforas. Dia desses li o escrito de uma mocinha que dizia sentir o coração bater como um sino. Chegou a dar nome às badaladas. Aliás, o mesmo nome a todas. Chamava-as Henrique. Não demorou para que se comparasse a uma catedral, badalando assim no peito com o arfar de pombos assustados. Um dia, Henrique passou e fez um gesto que ria dela e de suas badaladas, e a elipse engoliu o sino.
Ficou subentendido que amava, mas nunca mais badalou, senão para outro nome.
Depois de virar a alma ao avesso, entre tarja preta e cinema clássico, penso ter atingido a zona de equilíbrio existencial, que nos faculta a um temperamento de fato artístico.
Não acredito na arte como catarse.
A idade do bambi -- completo 24 anos amanhã -- leva-me a uma dimensão mais responsável quanto ao meu papel profissional. Pedi demissão de cargo público depois de ter vivido todas as lamúrias de um concurseiro desempregado. Ínterim durante o qual desenhei as bases de hoje. O cartão de apresentação usa o dourado para ampliar o cinismo que se vai fazendo minha intenção. Consultor de textos, concentrado no laptop, a madrugar a aurora tímida do dia enquanto desencaneta a tinta vermelha sobre originais que se vão ao lado. É assim que ganho meu troco polposo.
Escrever não é profissão em países tropicais. Mas consertar texto alheio é sim.
Caro revisor, preparador, editor.
Entre uma canetada e outra, continuo a especular sobre a vida, iluminando a política como centro basal. Não a política dos homens de Brasília, mas a política do homem comum, que vota pela política dos homens de lá. Fico a pensar que a tendência apolítica atual seja a postura mais política adotada. Pelo menos em países tropicais, onde é crime gastar-se com terno o tempo que se pode passar de sunga. Continue Mainard com seu histrionismo antiesquerdista e fajuto. Já nem me refiro a meus ex-compadres socialistas. Todos gordos fazendo o trigésimo ano em sociologia. Quando se sentirem preparados para a "revolução" por que tanto aguardavam, talvez não encontrem forças para sustentar o próprio diploma e prefiram pagar com discreto silêncio o contrato de um bom plano de saúde.
Sem carências, porque já se iniciam doentes.
Não sou escritor. Escritor é o que finjo ser, o que brinco de não pagar minhas contas. Escritor é meu lado impertinente de querer ser lido e apreciado, enquanto meus pensamentos não resenhados são o que de melhor eu tenho a esconder.
O mundo mudou. E não foi só o Kuat que percebeu isso.
Amor não sai de moda, mas inflaciona o mercado. Amar é ser homem, e não querer um outro à cama. Falar de amor é a ocupação que não rende senão boas músicas tristes e um apanhado de livros medíocres. É a sensação furtiva de jovens ricos e pobres, enquanto seus pais desiludidos vão aumentando a diferença social.
Rico ama pobre que fica rico de família pobre.
Amor não sai de moda, mas não é qualquer coisa dum desfile que se pode usar.
À margem de um negro ocupar a Casa Branca, depois de desancar a compreensiva chifruda loira e teatral, estamos à luz de uma nova época, igual a qualquer outra, quando então, neste país tropical de pouco verbo e muita astúcia, o torneiro-mecânico se prepara para deixar o Palácio do Planalto.
Aumentem logo os juros, pois a inflação não pode voltar. Nossos jovens devem seguir entoando o amor, o amor, o amor, como se a nação fosse apenas desculpa para cada dor individual.
Let's dance in style, lets dance for a while
Heaven can wait we're only watching the skies
Hoping for the best but expecting the worst
Are you going to drop the bomb or not?
Let us die young or let us live forever
We don't have the power but we never say never
Sitting in a sandpit, life is a short trip
The music's for the sad men
Can you imagine when this race is won
Turn our golden faces into the sun
Praising our leaders we're getting in tune
The music's played by the mad men
Forever young, I want to be forever young
do you really want to live forever, forever and ever
Forever young, I want to be forever young
do you really want to live forever? Forever young
Some are like water, some are like the heat
Some are a melody and some are the beat
Sooner or later they all will be gone
why don't they stay young
It's so hard to get old without a cause
I don't want to perish like a fading horse
Youth's like diamonds in the sun
and diamonds are forever
So many adventures couldn't happen today
So many songs we forgot to play
So many dreams swinging out of the blue
We let them come true
Forever young, I want to be forever young
do you really want to live forever, forever and ever
Forever young, I want to be forever young
do you really want to live forever, forever and ever
Forever young, I want to be forever young
do you really want to live forever?
O fato é que a profundidade do espírito é mera suspeita e divagação, e que muita dor dita profunda, se dado o tempo certo e a atenção exata, desaparece como o nome na areia que o mar levou.
Não sei se já tentaram escrever sem inspiração. O espírito fica como que obrigado a respirar. A questão é: quer-se respirar para viver ou para livrar-se do tédio? Livrar-se do tédio é necessariamente viver ou um continuar inspirando-se vazio? De qualquer modo, não sou de grandes especulações existenciais. Digo sem o menor constrangimento que passo horas na internet lendo sobre a vida de Lindsay Lohan. Tenho um sei lá fascínio pela vida destituída de pensamento. Um deixar-se viver leve e burro.
Por isso faz seis anos que vou à academia. É possível contar quantas vezes cumprimentei alguém naquele lugar. A mocinha da recepção sempre me olha intrigada, às vezes ameaça um aceno, mas já percebeu que não sou de natureza lá muito cordial. Outras vezes se recusa mesmo a olhar, e é quando se torna mais interessante. Sou grato a essa sua alternância, porque isso me distrai. Confesso até certa irritação quando alguém se interpõe e ela, não se impondo a me ignorar, o acaba fazendo por completo. É miserável ser ignorado sem o pensamento, por mais que eu o não busque.
Não sei seu nome, por simples motivo de não atentar-lhe o crachá. Receio que, se assim o fizesse, ela tirasse disso uma distração minha e se pusesse a achar-me agradável ou supostamente esforçado nisso. Imagino-a arfando os peitos para facilitar-me a leitura. Não, não cometerei o descuido! Passarei como tantas vezes sem supor-lhe a existência, deixando-a com a suposição dos vermes. E não pense que o faço de cabeça baixa e gestos miúdos. Alinho a coluna e visualizo o horizonte, como qualquer ser não-pensante deste mundo.
Estou a vendo agora ao longe. Máquina distribuidora de sorrisos e informações. Já vai mudando a forma tão logo percebe minha aproximação. Vai desesperando alguns papéis, tomando notas desnecessárias, fingindo discar o telefone. Será como as outras tantas vezes em que ela ignora, atrapalhadamente, o ser que a despreza.
Catraca.
— O senhor tem algum problema com o cartão.
Senti a voz soando-me à nuca, um suspiro de vingança da classe operária.
— Como?
— O cartão...
— Resolva.
Não ouse um ponto de exclamação nesse meu verbo. O imperativo foi frio assim como vai o ponto nele. Final.
— Passa o cartão pra mim que eu vou estar checando...
E o não-pensamento tomou conta de mim. Era o vício estendendo-me a mão e dizendo “eu não sei, você também não sabe, mas nossas ignorâncias são todas resolvidas no sistema". O problema, de fato, fora resolvido. Entrei e fiquei sentado alguns minutos na cadeira do supino, movimentando os alteres no chão, enquanto repetia o nome de Marina, duas, três vezes. Na quarta me ative à obsessão, chamando-a ordinária, e algo no coração palpitou forte.
Eu amava a vida sem existência daquela mulher e queria muito humilhá-la por isso. E nisso encontrei a inspiração que me faculta a incapacidade de escrever.
O Sol já vai despencando no céu, e os raios como que ficam num esforço inútil de sustentar a luz do astro tombado. Assim morrem os últimos raios do dia: na aventura de estendê-lo, como se fossem cordas de aço erguendo uma bola quente e amarela.
Estou feliz. Timidamente feliz em mim. Sinto, no fundo, uma inadequação para a felicidade, e isso se junta com o gesto alegre que às vezes salta, e fica que a mistura se torna algo acanhado, como pedisse desculpa.
Eu pareço estar me despedindo eternamente. Nunca me admito nesse estado feliz sem um ímpeto que o questione bravamente. Assim como não me ajusto às criações do bem-viver humano. A degustação de um vinho, por exemplo, à mesa de um restaurante, parece-me uma afetação dos diabos, mas essa é uma opinião que só valeria se eu tivesse muito dinheiro e elegância. Agora sou apenas um inapto sem um bom corte de cabelo.
Gosto da poesia, mas também não gosto. A poesia das palavras bonitas não possui a grandiosidade da poesia sem verbo. Gosto de trancar um sorriso na lembrança, de guardar um olhar indecentemente romântico à luz da multidão. Um garimpeiro que diriam sem sorte, mas que percebe na água um sentido bruto e insubstituível. Coisas sem valor que humildemente retenho.
E com quantos posso dividir isso? Meus olhos se enchem tão facilmente quando penso, quando sinto a brecha. Não há ironia que resista ao toque da eternidade. Nós mesmos não lhe resistimos. Quantas vezes, porém, invadindo um coração, tivemos vontade de fingir que não sabemos como aconteceu? A ignorância salva. Eu bebo porque sóbrio não sou igual a ninguém. Bebendo eu me ajusto.
Bebendo eu não fico tentando adivinhar, nesse jogo da provocação dos sentimentos, qual é o exato momento em que alguém deixa de amar.
Ia descendo a Lafaiete quando um carro encostou. Desceram duas senhoras; uma era a motorista, a outra, mais velha, decerto sua mãe. Reencontrando-se na calçada após um breve contorno da primeira, que bateu os pés na rua como se o carro houvesse imundo, ambas se pegaram pelo braço e seguiram juntas até a porta do edifício Casablanca.
No trajeto, contudo, a senhora mais velha, por descuido, deixou cair não sei o que parecido com um terço. A queda foi tão infeliz que o objeto se desfacelou em vários, vindo a cair menos da metade, que já era senão a parte maior, bem junto ao meu pé.
A velha encarou-me como se me houvesse culpa. Tentei devolver-lhe o pedaço da fé, já reduzida a algumas esferas de pai-nossos e quase uma dúzia de ave-marias, mas a tal recusou-se a recebê-lo, gemendo alguma coisa interna que me desaprovava perante o céu.
A filha, ou talvez uma irmã mais nova, não sei, disfarçadamente fez para mim um aceno de cabeça com o qual fechou os olhos e dissimulou uma reprovação à atitude da companheira, que continuava a esbravejar, evitando assim qualquer defesa que eu pudesse emitir, que aliás seria inútil e desnecessária. As duas, ainda pregadas uma à outra, entraram no edifício, e digo que as vi pelo vitral aguardando o elevador, desaparecendo depois.
Examinando o terço, reparei nele a imagem de um senhor demoníaco entre faces desesperadas de bocas abrindo nas chamas. Comprovei a mesma figura distorcida nas outras esferas, e nas menores, e nas caídas no chão. Empalideci. Olhando para o alto, já no desespero alegre e cênico daqueles que supõem terem sido tocados pelo outro mundo, quis adivinhar em qual dos apartamentos estariam as velhas -- imaginei logo o mais alto --, e qual não foi minha surpresa ao me deparar com um ser soturno, de braços cruzados, que parecia tal estátua gótica a esconder asas de Ícaro, com as quais se lançaria da janela para um vôo negro e surdo.
Passado algum tempo, como se me pusesse a esperar pelas duas que entraram, vi saírem duas moças, uma mais que a outra, no mesmo gesto grudado de outrora, mas ainda assim quietas, quase sorrateiras, metendo-se apressadamente no carro que as levaria embora. Antes, porém, a menos jovem, mas ainda assim moça, sentindo-se observada, virou-se e fixou os olhos em mim. Uma gargalhada estridente fez-se ouvida ao longe e conta-se que, naquele instante, um vulto irreconhecível, despencado da janela alta, perfurou sombriamente o céu.
Paro diante do teclado e fico a indagar o que ainda não teria sido dito ao mundo que eu pudesse dizê-lo assim agora. Fico como que constrangido pela falta do que dizer, e não raro recorro à metalinguagem, que é novidade comparada ao ato de falar de uma espinha no rosto enquanto a espreme.
Tornar-se imbecil é exercício que exige inteligência. Estar aqui entediado, olhando para as unhas, vezes deitando a cabeça no umbral, para evocar um espírito qualquer que se lhe apresente como amigo, é menos nobre que ter uma motivação retardada para a vida.
E eis que um motivo freqüente é o amor. Ama-se como desculpa para o tédio. Ou não se ama em absoluto, e o expediente trata então de espantar a todos com o propósito do desamor, pois até um coração de gelo tem por divertimento derreter-se enquanto se contradiz.
Ou deseja-se ser um asno a crescer na empresa, ou ter o próprio negócio para falir. A visão míope de uma formatura de analfabetos funcionais. A viagem dos sonhos para a puta-que-pariu. O fondue na casa-do-caralho. A cirurgia plástica no olho-do-cu. Motivos.
E todos se acham superiores a todos, intimamente, crendo que a vida, se é de fato medíocre, ao menos se disfarça melhor em alguns. Mas todos, sem distinção, sorriem para as fotos, pois o Photoshop existe e a felicidade é só um querer existir e acreditar debilmente, com todas as forças.
Gostei de Stardust, O Mistério da Estrela. Baseado num livro de não sei de quem, traz a atmosfera épica de O Senhor dos Anéis, com Michelle Pfeiffer no papel de Lamia, uma bruxa que tenta a todo custo comer o coração da mocinha-princesa-estrela (!) para voltar a ser jovem. Se bem que a juventude não parece ser problema para a atriz, que, aos 49 anos, parece uma mocinha de tão linda e esbelta (Madonna ao lado dela parece uma vó desesperada por pilates e botox).
-- Desculpa, Mad, mas eu nasci assim!
Stardust é um conto de fadas violento, imoral e cínico, mas sem a obrigação cômica de Shrek, que já era. O Cine Gospel não recomenda (por que será, jeová?), mas eu adorei. Poucos filmes me fizeram sair tão "arejado" da sala de projeção, e olha que termina com "felizes para sempre".
***
Estive observando que não tenho mais ciúme de nada que tenha coração.
O perfeccionismo muitas vezes atrasa uma concepção. E o atraso é algo que este mundo já não concebe com muita paciência. Atraso é fracasso. Logo, perfeccionismo não leva, necessariamente, ao sucesso.
Existe um triângulo de expectativas para todos os nossos serviços, e dizem ser quase impossível atender satisfatoriamente aos três vértices da pirâmide, tendo-se de optar por, no máximo, dois. São eles, a saber:
- Qualidade;
- Preço;
- Prazo.
O raciocínio é simples, e vou discorrer sobre a combinação que me interessa: Se se quer tudo "para ontem", o preço aumenta com a urgência e a qualidade se compromete com a pressa. No entanto, a sociedade, em seu quinhão artístico, acostumou-se à produção frenética, e está que não se importa a pagar mais por ela, contanto que saia, que desove, que seja gerado algo ao consumo.
Em suma, é isto: queremos algo a consumir. Como já esta geração não experimenta o adestramento do bom-gosto, o consumo por si só é qualitativo, bastando uma opinião confirmativa, uma etiqueta bem pregada, uma marca com boa propaganda.
Por isso mentes medícores tendem a ser produtivas. Indo para a realidade dos "jovens escritores" que povoam o imaginário da ressurreição da literatura brasileira, é como se, não havendo primor pela qualidade, gerassem compulsivos e desesperados obra atrás de obra, textos para todas as revistas e jornais, participações em feiras, mesas-redondas, programas de TV, auditório etc., onde falam, falam, falam sobre tudo, mais até que Caetano sobre coisa alguma.
Abrem o notebook e, numa espécie de action painting, dão cabo a mais um salame literário a ser degustado ao sabor das discussões no Orkut. Essa é a profundidade requerida.
Motivo deste post
Foi algo perto da humilhação -- e não inveja -- que senti ao folhear na livraria o livro de Mayra Dias Gomes, a propósito filha do Dias, a qual, aos 19 anos, lançou pela ed. Record seu primeiro romance, Fugalaça, sobre aquele monte-de-porra-de-adolescente-atormentado-no-mundo-de-sexo-e-drogas. Escreve bem para uma garota de 19 anos. Teve a sorte de unir o regular à grife do sobrenome, o que lhe valeu só pelo berro uma centelha de holofotes e atenção.
Eu, aos 23, saí da livraria diminuído. Para que estudar a língua se eu poderia usá-la como o Word: o básico, sem entender patavina daquele mundo de função. Só "colocar para fora", "escrever como terapia". Para que projeto? Para que pensar com tanto requinte em algum enredo bem concatenado se, para os críticos daqui, Fernanda Young é gênio? Estilo? Não querem estilo. Querem novidade, querem conhecer um mundinho minúsculo (me vê um underground, por favor?) para dormirem na ilusão de que a vida se explica nas beiradas. E Schopenhauer já dizia isso lá atrás...
A lei é: "Vomita que já é alguma coisa".
Sinto-me um fracasso pois a idade do prodígio já está passando e sei que, em breve, serei alguém que demorou demais para acontecer.
Não que eu veja solução para o mundo, nem quero eu que haja, mas é inegável que, vez ou outra, por mais resistente que se faça um coração, contrariando a oferta dos deuses diabólicos e de suas musas devassas, nasce, como plantinha solitária no vão dos concretos da Paulista, um sentimento real e genuíno por outro alguém, que se vai estendendo para além dos limites do homem, pousando ali na zona onde o divino parece significar mais, e talvez signifique justamente pela ausência do entendimento.
O trecho abaixo saiu espontâneo na madrugada. De repente levantei da cama e precisei escrever. Só o publico porque o quero desmerecer, e porque não confio tanto assim em coisas mágicas que se nos despertam com interrogações:
O que escrever para que todos queiram ler este livro? Talvez se começasse com um grito. Um grito que nada significasse senão um grito. Mas como sem propósito se o deste é ser notado? Enfim, talvez seja um grito propositalmente sem propósito, mas com um propósito bem claro nele: chamar à vida. Um grito que estendo várias páginas, em silêncio mudo e estrangular, porque aprendi desde cedo -- e é essa a história que irei contar retomado o fôlego -- que muitos gritos nunca saem de nós, embora possam ocupar toda a eternidade reverberando dentro.
(Mesmo que a noção da eternidade seja a todos uma mera suspeita, nunca uma experiência.)
Falamos eu e a insônia ontem na cama. A insônia, menina de circo toda esguia e travessa, quis trepar-me a consciência escalando os fios de cabelo. Puxou-me, puxou-me, puxou-me, até arrancar-me do couro uma confissão de saudade.
Tal foi o susto que me ergui em salto e, prostrado, recolhi os joelhos junto ao peito, enlaçando-os com braços que nunca diriam dois de tão coisa só que se tornaram. Balancei o corpo repetindo o nome, quase não o crendo, e a insônia deu-se em pirueta, girando o quarto todo, feliz por ter-me tirado a verdade.
Foi então que ela cortejou o telefone. Enrolou-se toda no fio da comunicação, prevendo que eu não resistiria, que eu não me aguentaria de vontade. Começou a cantar os números e até ensaiou discá-los. Mas eu continuava louco em mim, um sanatório que não se acredita e por isso surta. Surto. Surto. Surto.
A janela entreaberta ventou o aroma noturno, e o som dos gatos na calha predizia o encontro dos felinos que cochicham o destino negro sobre nossas cabeças. A Lua parecia engolir a Noite de tão grande. A saudade arrebentava, e junto dela as lembranças, a memória do carro, do presente, o soneto que parecia tão sincero de amor quanto o foi no momento, as mãos dadas em aperto, o gesto miúdo, eu dividindo o colchão estreito, sentindo a respiração, o calor do outro corpo, que quase não era outro de tão continuação do meu que sentia. Que palavras teríamos dito para nos prender para sempre?
Nisso um gato deslizou do telhado e parece ter havido uma confusão no concílio. Logo se dispersaram em miados, irritados e maldizentes, enquanto a menina do circo se engasgava com o fio enrolado no pescoço. O mistério da Noite revoltou-se e parecia agora engolir a Lua, que ia enovoada e sem brilho. A saudade já não era a saudade senão de tê-la. E a insônia deu seu último suspiro. Aliviado como o escuro. Aliviado como tudo aquilo que nada pensa.
Há certas forças que me prendem em casa. Vou-me arrastando pelos quartos, pela sala, parecendo procurar por braços que me acolham, ou por algum ensinamento rabiscado na parede, vestígio de humanidade anterior à minha, e mais sabida porque acabada. Não encontro nada, e vivo assim me arrastando, temendo ceder à noite e acabar parando em algum bar, algum boteco de esperanças jogadas à mesa, entre risos torpes e piadas sem espírito, cujas forças parecem prender mais pelo esvaziamento mental.
Quero, de fato, outra alma como a minha (e é esta busca que me não prende a nada), uma em que penetre deslumbrando-me pelo que tem de igual, estacionando, após destruir a chancela das resistências, no coração lotado de coisas que não outros corações, e então, descendo o vidro, exigir vaga ampla e eterna, que trata senão da eternidade do final do mundo, porque, se é que Deus é justo, e se é que existe algures, haverá de decretar um final para isto, sem a encenação de um apocalipse, que é invenção de um homem pequeno que nunca acreditou mesmo no seu fim.
O fim é um apagar de luzes, sem cornetas ou vozes aflitas, apenas um acabar-se de repente sem emoção alguma.
O casal ia escondido, ela quase tropeçando nele, ele tentando buscar o melhor lugar para os dois ("a eterna aptidão dos machos", pensaria ele, se pudesse pensar em termos bonitos e raciocínio histórico). Mas eis que encontram uma árvore, grande e em copa, já marcada de antigos amores, que parecia, segundo ela mesma chegou a suspeitar calada e poética, "nascida para esconder os namorados".
Ele trouxe-a encostada ao tronco e quis fazer pose de galã, apoiando um dos braços na madeira, por sobre o ombro dela. Ele galã, ela bandida, porque o fichário ainda lhe ia apertado ao peito, como a lembrá-la da ousadia confusa de ter saído mais cedo da aula para uma noite de beijos. Ela gostava da sensação de ultraje. Podia bem naquele instante já dispensar o galã desajeitado, que se ia afundando nela sem muita gentileza, e ficar sozinha e a coragem e nenhum beijo, apenas a idéia de se haver lutado por um.
O rapaz, percebendo a dificuldade de atravessá-la, ensaiou um elogio, mas não viu nada nela que merecesse um. Mentiria, pois. Falou da beleza de seus olhos, que é a mentira de todos os séculos, mas esqueceu o nome "pupila" e ficou só no vago olhar, sem detalhes de natureza penduricalha, que ao amor é ouro fino. Ele sabia que não podia muito, e que ela, mesmo sendo pouco, já era o bastante que o sufocava. Era a primeira dele, aliás. Eleita assim porque era mais velha, e porque era vadia, e também porque, mesmo sendo mais velha e vadia, se deixava levar, como apoiasse os primeiros amantes no aprendizado da dominação sentimental.
Entretanto, ela, vendo-o se afastar fracassado, puxou-o de volta pelo cinto, libidinosa e traiçoeira, arrancando-lhe um beijo sem muita língua. Ele não gostou porque não podia comparar, e porque fora roubado, mas os sucessos foram contados com entusiasmo no dia seguinte, quando ela era então um beijo mais vadia da escola. Ela, a despeito das opiniões, gostou do beijo, justamente por ser mais um, e por não ter ela a mania da comparação, acreditando intimamente que tudo, sendo mais um, é único, e que de tudo, sendo único, se deve tirar um gosto, um sabor, "até fartar-se inteira", pensava, perdendo quem sabe não só a reputação, como também mais um dia da aula que não ensina nada, absolutamente nada da vida.
Acordei já meio tarde, com a hora já passada do que devia ser. Mas não me apressei, porque a pressa já não me faz bem. O pão esperava na mesa, a manteiga já ia derretida como o dia lá fora. Na tevê, uma atriz conhecida gesticulava seus problemas superados, bulimia, bipolaridade, sendo observada pela apresentadora que lhe queria tirar a alma no vídeo para depois ensinar o rocambole de espinafre. A manhã brilhava assim como nada parecia muito sério.
Arrastei-me ao espelho e agradeci minha imagem sem inteligência. Apenas imagem de sono acordado que não se pensa ainda. Bom dia, reflexo de nada, do final de todas as coisas. Pensei, e foi o primeiro pensamento no dia, que o melhor seria voltar para a cama e imaginar que este dia, este que me vai tão existente no calendário dos hábitos, na oficialidade dos costumes, imaginar que ele nunca houve haver, que nunca quis ser nada como qualquer coisa que sabe querer sendo.
Mas o dia fez-se lembrado. O cachorro latiu por comida. A mãe esbravejou lá de fora. O telefone tocou sem parar. O dia, dia-a-dia, é refeito sobre o cansaço, acudindo que a rotina é um pouco da vida, senão tudo, e que o sonho pelo sonho é mais nada que o desejo dos desesperados.
Desenrola-se-me um sonho inacabado. Vontade de desistir do que eu quis tanto, não ser funcionário de regras nem horários, viver somente para viver mais uma vez, sem me preocupar com a evolução material que, juro, me parece nada. E quanto assim entro no meu carro, mais do que eu queria até então, penso logo no exagero que é tê-lo, que bastavam duas rodas, e eu me ia de bicicleta, sendo o menino que deixei de ser.
Mas o carro me engole sobre a lua, sacramentando que sou aquilo e quero ser mais. Desenrola-se-me um sonho inacabado, que é negar o mistério de que nasci sabido, que não ouso compartilhar, apenas sugerir ao mundo que espera que me pronuncie. O livro, senão a frase, que sirva de consolo aos abatidos, que ponha marcha aos pés que desistiram caminhar. A cólera parece contaminar a fé. É como se a vida tivesse como razão a morte, e que, dada a constatação, falissem em nós todos os sentimentos de revolta. O mistério torna-se algo adiado, algo encravado no céu, feito estrela cintilante para a qual dedo aponta dizendo que já morreu há tempos.
Por que nasci tão covarde? Por que, se de um lado me atribuíram missão grandiosa, de outro me despiram de qualquer coragem para levá-la adiante e a cabo? Por que me encheram de méritos que me fazem distrair e só me querem prender ao mundo de gratificações e reconhecimentos? Quando vou desistir de tudo e fazer crer a mim que nasci para, e só para, escrever, mesmo que isso represente minha própria loucura, minha própria falência como civil e filho promissor? Quando, enfim, hei de entregar minha própria vida pela vida que sonhei para mim?
E quando seus ídolos de Malhação começam a envelhecer? Essa daí é da época do Dado, que comeu metade do elenco feminino (e 1/3 do masculino, mas isso é segredo), da fase em que o nome da novelinha ainda fazia sentido e tudo se passava dentro de, RÁ, uma academia. Ainda bem que agora é tudo mais "inteligente" e nossos pródigos vivem por "malhar" os neurônios dentro do Múltipla Escolha, com aquele ator que gosta de comer travesti. Cada geração tem aquilo que merece, ora pois.
Voltando, esse povo sem maquiagem deve ser o capeta. Adoro pegar aquelas revistas estrangeiras (mui amigas) que fazem questão de colocar lado a lado fotos de "divas" em momentos de puro glamour, deslizando sobre o tapete vermelho, e em flagras de quando acabam de sair da lavanderia, todas curvadas carregando filhos e sacolas, com a pele gritando por Photoshop.
Aquilo sim serve de auto-ajuda para qualquer mortal com um mínimo de vaidade. Nada de ler "Como ser feliz buscando a felicidade em você" (existe? não sei, mas devia). Porque sou raça ruim que se alegra com a decadência alheia. E a decadência física é a mais deliciosa, embora a moral seja mais repleta de bons costumes.
Aí está a capa do livro que estou lendo. O interessante é que ele não tem história. Que gente séria não leia isto, mas o livro parece um blog de tão desconexo. Frases soltas, pensamentos vagos, crises repentinas. É como pegar de viagem na rabiola da pena do poeta. (Não que penas tenham rabiola, mas o lirismo permite tudo.)
A palavra mais recorrente no livro é "tédio". Fernando Pessoa parece estar sempre entediado com a realidade, mas longe de querer transformá-la. Ele faz questão de manter-se na esfera do sonho, sonhando de dentro para dentro, na amargura de saber-se nunca externado. Sonho que parece explodi-lo a cada instante.
A cabeça do poeta é como saltasse da página e afirmasse que mais triste que não atingir um sonho é atingi-lo. Ele como quer que desesperar seus leitores. Quando parece haver respostas, ele muda o sonho. Melhor, muda a pessoa. Um poeta que não cabia num só.
O livro nasceu para ser prosa, acabou poesia corrida. Assim, sem enredo, apenas o fio de ser Pessoa, que nunca se terminou, assim como o desassossego da vida.
***
O livro coadunou-se com minha fase atual, que não consegue história grande, tal qual autor de novelas que, não tendo um enredo central forte, inventa por misturar outros tantos pequenos, a fim de ganhar na quantidade, porque tanto se acerta no coração quanto mais se dispara nele. Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos, é caso típico televisivo: o casal de lésbicas, a professora que apanhava de raquete, a mãe que morre baleada no trânsito etc. Mas o que unia tudo isso? Faço a mesma pergunta para mim: o que está unindo tudo o que estou vivendo hoje?
Legião Urbana diria "o amor", mas Renato Russo não agüentou-se acreditar.
EdUaRdO >> destination unknown diz:
com 15 anos vc já era um psicopata
Dorian diz:
vou desconsiderar o q vc acaba de dizer...rs
EdUaRdO >> destination unknown diz:
heeheh mas eu sei que existe um coração no fundo dessa alma gelada
Dorian diz:
hum.. bem pequenininho...rs
***
Se eu estiver dando em cima de você, e você estiver lendo este blog, aproveite a sorte e fuja enquanto é tempo. De mim e do blog: tudo feito para prender você.
Psicótico, neurótico, todo errado
Só porque eu quero alguém
Que fique vinte e quatro horas do meu lado
No meu coração, eternamente colado
No meu coração, eternamente colado
Difícil fazer crer que tenho boas intenções. Difícil fazer crer, empunhando um copo de cerveja na mão, enquanto me equilibro na guia da calçada do bar, que sou muito mais que um fraco para a bebida, que sou todas as fortalezas de um sentimento bom, que só é meio torto por falta de quem lhe acredite.
No embalo do amor embalado em mim.
***
-- Estão falando mal de você, Rob...
-- Um notícia boa, enfim.
Não sei que capricho é este que me empurra a surtos cada vez mais incompreensíveis.
Parece-me resquício de consciência digna que não me deixa entregar-me às convenções baratas, aos contatos usurpadores, aos amigos-carrapatos. É como se houvesse em mim revolução urgente, vermelha e amarela, e eu saísse em disparada erguendo em punho um rojão de cores e sons de cavalaria, aos gritos e berros ardentes, pronto a livrar-me do cativeiro em que me trancafiam com mil lanças à espreita, explodindo-me por dentro, escorrendo-me por fora. Vou no pavor conquistando a liberdade, vou assim colecionando os corpos no caminho, empilhando-os um a um, sem desculpas nem perdões, apenas o retumbar fúnebre e funesto de saudades dissipadas, de despedidas doídas para o sempre, de pessoas que não são mais, ou que precisam deixar de ser para eu ir.
Assim me liberto, assim volto a estar só. "Preciso de você", dizem. E eu retruco, na suave melancolia dos eleitos: "Preciso não precisar de você".
***
Resta de alento saber que para cada um existe um jazigo em mim, decorado de grama verde e úmida, e um epitáfio eterno correspondente à lembrança que um dia vai.
-- Regina, você, que é uma pessoa tão opinativa, o que achou do pan?
-- Tava um delícia, obrigada por perguntar, fofa!
-- Não o pão, Regina, o pan.
-- Ah, o pan... (gargalhando e se jogando no sofá)... então (se recompondo), não sei ainda, não deu tempo pra assistir.
-- Regina, o pan já acabou...
-- Acabou (olhos arregalados do tipo "enfiaram o dedo no meu cu")?
-- Acabou!
-- Dá pra pedir brioches?
***
Agora a minha sutil opinião:
Tirando o fato de que era um evento de nível técnico terrível, com EUA e Canadá enviando seu terceiro time (nem B era), sim, a organização até que tava boa.
Tirando o fato de que os esportistas americanos foram "silenciados" depois do caso "Congo" e, aliás, estimulados a falar bem, e somente o bem, do pan, sim, todo mundo adorou. (No comecinho, quando não havia censura, gostei de ler os blogs dos competidores americanos acerca do Rio; juro que fiquei constrangido e envergonhado com a descrição que faziam da cidade.)
Tirando o fato de que o presidente da Odepa, sei-lá-quem, só faltou dizer que fomos megalomaníacos e ingênuos ao gastar uma fortuna organizando um evento de "terceira linha", pensando que, assim, teríamos passe para futuras olimpíadas, sim, até que a festa tava legal.
Tirando o fato de que até uma das qualidades mais destacáveis do brasileiro, a "felicidade", tenha sido questionada pela imprensa européia, que nos chamou de povo de "patriotismo grosseiro", por conta das vaias inoportunas e deselegantes aos competidores estrangeiros, sim, até que o pessoal se divertiu. (Quanto à imprensa americana... bem, eles talvez tenham esquecido o evento.)
Posso ainda tirar muitos fatos. E, quanto mais tiro, menos tenho a destacar.
***
Para variar, os "intelectuais" promissores das letras deste país evitaram um assunto de tanto apelo (sabe nojo de povinho?) e deixaram o pan passar sem nenhum apontamento mais metido na alma do brazuca, que parece cada vez mais distante do céu celestial onde os autores idealizam seus deuses universais, quase divinos emos. Afinal, não temos escritores, temos egos que escrevem para passar de ano e não deixar a franja arrepiar.
Perdendo a compostura. (Não existe qualquer relação imagética com o texto abaixo.)
Há quem duvide de que o tempo conserte as pessoas. É de se presumir que toda gente se pegue, um dia, refletindo sobre o que se é e sobre o que se vai sendo, mas é difícil crer que a partir da reflexão haja necessariamente uma transformação profunda.
Podia aqui discorrer sobre a substância intocável de nós, mas já houve por estes séculos quem falasse mais e melhor. Eu ainda falo pouco e tortamente. Não seria novo dizer que a essência vai metida já na criança que grita ao mundo o primeiro berro, ou no senhor velho que se senta à praça vendo o dia passar como as esperanças que um dia sua vida passou.
São absolutamente iguais, a criança e o velho, um berrando e outro querendo berrar. No fio entre os dois existe o que chamam existência, que é quando se põe à prova a essência que nasceu e vai morrer igual, na esperança de que não.
Fracassados vivem por aí fazendo "contatos" que nunca dão em nada.
Fracassados vivem quase entrando na rede Globo.
Fracassados vivem quase sendo chamados para a Malhação.
Fracassados, quando percebem a condição de fracasso, topam o teste do sofá, e é quando, enfim, entram no Projac, para serem assistentes de iluminação do Globo Rural.
- - -
Só divagações antes de me pôr a dormir o sono que me vai sonhando (sim, muito Pessoa).
Difícil explicar que é por um livro de Fernando Pessoa que me tenho em casa sábado à noite. Mas a verdade é que a poesia entra de tal forma pelos olhos, e se mete no espírito com tal formosura e delicadeza, que sacrifício maior seria abortar esta sensação para sacolejar os quadris em alguma boate nojenta da cidade.
Clarice está na moda, o que parece contorcê-la no túmulo. Aproveito para compartilhar uma entrevista que ela concedeu à TV Cultura um pouco antes de morrer.
Nunca a tinha visto falar. Ela é estranha, paralisante, e até cômica. Em certos momentos da entrevista, pareceu lembrar a irmã Selma, do Terça Insana, principalmente na parte em que diz, em tom solene: "quando eu me comunico com criança... é fácil, porque sou muito maternal". Pro colo dela eu não ia.
Chico (tá, eu respondo; não à sua altura porque você é muito baixinho, quase uma propaganda enganosa). Meu salário era (observe o emprego do pretérito imperfeito) bom, bem melhor do que a melhor das suas pretensões de profissional de início, quase eterno, de carreira. Como sempre, estou mais adiantado que você, que é lento e burro, e já passei da fase dos concursos. Aliás, acabo de abrir mão do meu para quase triplicar o meu salário (era essa a grande guinada a que me referi neste blog), trabalhando como editor (veja como a vida ajeita adequadamente seus talentos, por mais que se debatam contra si).
Chico (que poderia ser um Zé qualquer, e quase o é), penso que meu roteiro ao exterior, além de mais extenso que o seu, será patrocinado por conta própria, o que é fator de orgulho para pessoa que nasceu de família pobre e culturalmente medíocre (também sou crítico comigo, pode-se abster do esforço).
Agora volte a atormentar as pessoinhas sem cérebro que parecem garantir-lhe fama segura de louco descompensado. Comigo você não passará do que na verdade é: um cachorro morto.
Queria tanto responder ao "chico" (vide comentário do post anterior), mas não seria de bom-tom rechaçar pessoa a quem a vida já ocupa extirpar. Você esperava mais dela nessa idade, não é mesmo, "campeão"? Boa sorte nos concursos.
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Meu novo template está ficando ótimo.
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Só é possível pensar amor quando já não se está amando. Por isso ando inspirado.
Vou voltar com o antigo fôlego neste blog (sim, escrevo blog, e não blogue, sua mala sem alça).
Agora só vou andar com minha digital e flagrar (adoro esse verbo) os instantes mais bobos do meu dia, tentando filosofar sobre eles (ninguém precisa saber que me inspirei em Beleza Americana).
Estive percebendo que minha vida só parece pouco interessante por ausência de registro. E, confesso, por certa preguiça.
Mas agora que tudo está dando uma guinada é melhor não perder um segundo sequer.
Eu quero estar presente quando a vida estiver me acontecendo.
Foto: Celine Dion querendo imitar sua cópia do Museu da Cera
"A senadora Hillary Clinton, pré-candidata democrata à Casa Branca, teve sua música de campanha escolhida pelos internautas: a balada You and I, de Celine Dion."
Quase ninguém conhecia Celine antes de Titanic. Mas o amor foi passageiro, e em pouco tempo ninguém mais aguentava vê-la se esgüelar por causa de um navio. Um navio! não era o fim do mundo! Hoje, porém, ela se especializou em músicas que dão sono. Todo ano sai seu CD de Natal.
Resumo da ópera (cara dela): tão chata que vai parar no horário eleitoral.
Tom Cruise, 44*, aderiu à moda emo. Tá! Ele jura que está mais jovem por causa do franjão. Concordo. O cara pode: enquanto os caras da idade dele gastam fortunas com xampus antiqueda e implantes capilares, ele deixa a juba crescer e sai causando ao lado da mulher, a também emodificada Katie Holmes.
Agora quero vê-lo fazendo biquinho e cara de triste.
* Qualquer semelhança com Caras será mera semelhança.
O aniversário me trouxe tantos pensamentos. A sensação primeira foi de que a mala está ficando muito cheia e que, caso eu quisesse um dia mostrar para um forasteiro as lembranças que recolhi, eu teria de desfazê-la inteira, usando a cama para montá-las em peças separadas, como se na vida nada se cruzasse.
Daí veio outra sensação: estou ficando preguiçoso. É como se Dom Quixote olhasse os moinhos e visse, de fato, moinhos, só para se poupar da luta. Não tenho mais a pretensão de desfazer mala alguma, apenas inflá-la para um dia, quem sabe, vê-la explodir.
"Quem é você?" Talvez para a pergunta respondesse: "Sou um passado que não quero compartilhar com você." Tenho preguiça de desdobrar, de entender por que tal peça não caiu bem ou ficou velha depressa demais, ou por que um sapato apertou antes de o pé crescer.
Por isso agradeci cada parabéns. Agradecimentos de quem não se importa mais com tudo aquilo que escondeu.
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Estou me relacionando com muitas pessoas ultimamente. Observo como, entre elas, não hesitam dizer um "eu te amo" frenético e insistente, seja ao vivo ou pelo Orkut. Noto, ainda, que o "eu te amo" sai mais para suprir um buraco do tipo "você já não me acrescenta muita coisa, mas sei da sua importância para mim e quero você ao meu lado". Repetem, repetem, repetem até cansar, até fazer que o amor vire absolutamente um "bom-dia".
Relacionamentos que se mantêm ao fogo vivem na inquietação psicológica. Não raro discutem idéias, se apaixonam pelo ponto de vista do outro, ou odeiam o ponto de vista do outro, têm sede da comparação, dos detalhes, querem que o outro fale, querem que o outro escute, desejam viver intensamente o espetáculo. Eterna sensação volátil de espíritos que, por viverem se transformando, aparentemente nunca se sentem completos. Mas penso: o que é isso senão o amor? E são justamente essas pessoas que não repetem insistentemente o "eu te amo" gratuito e vazio.
Por estarem em constante devir, sentem que o "eu te amo", se cristalizado uma vez, pode se dissolver em todas as outras, porque "o melhor da festa é esperar por ela."
Por isso eu não amo ninguém. Nem a mim mesmo, pois sou minha maior fonte de inspiração.
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Minto. Amo demais uma pessoa justamente para esquecê-la.
Não, sem compreensão. Sabe que não engulo. Veja, aquele ali... não, o da direita, veja, eu o odeio. É pedir demais que você também o odeie? Não, não, para que explicação, motivos? Quero que você odeie e pronto. Por quê? Porque eu pedi, oras! Sem essa de ser maduro, de dizer que fulaninho não fez nada para você, que os problemas não se misturam. Quero que você olhe e odeie, só. Injusto? E me diga o que é justo nesta vida! Você, afinal, não é meu cúmplice, não é a pessoa que vai ficar quando todos tiverem ido? Então, é só um ódio a mais na sua conta, pode deixar que depois eu pago. Quem você quer que eu odeie também?
Um dia arrumou namorado. Feio. Esperto, mas ainda feio. O tipo de feio que nem simpatia ameniza. Ela achava lindo. E feio com feia não faz mal a ninguém: o mundo não mata, deixa viver. Eram feios felizes. Todo domingo terminavam pendurados um no outro no sofá de desenho floral da casinha no alto do morro. Ela se despedia dele ao portão, shortinho apertado e barriga escapando a blusa, ele apanhando a bicicleta e indo embora mulatinho, com bigode ralinho e dente quebrado. Era bonita a cena da feiúra se despedindo, com direito a beijinho no rosto e uma confissão ajeitada: "Você é a coisa mais linda da minha vida". Ela gostava de ouvir, apesar do bafinho dele, fazia carinha de afeto e encolhia o pescoço, sem se importar com a espinha que tinha acabado de espremer e por isso escorria. "Você também", respondia ela, apertando o franzino contra suas tetas grandes, enquanto dava nele vontade de mamar, de mamar, primeiro só ele depois um filho, outro, mais um, vários rebentinhos que tivesse com ela, todos feios como os pais, mas limpinhos como eles.
Não quero ser poeta e falar vagamente sobre o nada.
Quero a esperteza do raciocínio, o encanto da operação. Quero o bisturi cortando as veias e desvelando as razões por detrás das razões por detrás das razões. O homem não deve ser contemplado com tanta insistência. Deve, sim, ser dissecado, saboreado em nervos e tripas, por força do estudo da espécie.
Quero os grandes dramas, as grandes cenas. Quero as alianças improváveis, o bem se tornando o mal, o mal se tornando o bem. Quero, por favor, verter-me por um personagem, amá-lo por suas inconseqüências, por sua melancolia agressiva, quero os grandes atos, o som da epopéia, a sensação do enredo original.
Não quero calma, não quero paz, não quero a esterilidade poética.
Quero uma alma que aponte o dedo para mim e seja capaz de soerguer a voz como se nunca houvesse de me perder...
- Sua marca é horrível e seu slogan é pior.
- Então o que você sugere?
- Uma marca com menos cores e um slogan com menos adjetivos.
- Você entende mesmo do assunto, hein?!
- Não, é você que não entende nada!
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Mas tem que falar com sorriso no rosto para não passar a imagem de arrogante. Deus me livre ser um!
Recém-casada, a cantora Wanessa Camargo resolveu filosofar no seu blog:
"O amor agiganta a menor molécula de qualidade."
A frase é tão ruim, tão sem sentido, que dá vontade de dar um tapa na cara dela. Será que no mundinho da cretina as moléculas de gás carbônico se apaixonam fazendo ligações iônicas?
Conselho: Vá ser prostituta e escreva seu livro (dessa vez antes da Sandy, que continua virgem de tripla penetração).
Golpe de mestre (para um mestre da sua idade, claro, fingindo que foi sem querer). De todas as reações esperadas, a menos prevista era o orgulho. E foi orgulho que marcou.
"THÉRÈSE tinha sessenta e dois anos. Era alta e esguia, parecendo um esqueleto, sem um único fio de cabelo na cabeça, nem um único dente na boca, abertura de seu corpo que exalava um cheiro capaz de derrubar. Tinha o cu crivado de feridas e as nádegas tão prodigiosamente flácidas que se podia enrolar a pele em torno de um bastão; pela largura e pelo odor, o buraco deste cu parecia a boca de um vulcão, uma verdadeira cloaca; em toda sua vida, dizia ela, nunca o limpara (...). Quanto à sua vagina, era o receptáculo de todas as imundices e de todos os horrores, um verdadeiro sepulcro cuja fetidez provocava desmaios. Tinha um braço torto e mancava de uma perna."
Texto do marquês de Sade. Porque também há beleza nos destroços.
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Beleza nos destroços. Ah, como me comovo com pessoas que se deixaram destruir...
Ontem, no jornal, li um tema que anda incomodando na mente, como quisesse fecundar. Quando é assim, o Universo conspira a favor e traz até nós pequenas células zigotas, como a nos alfabetizar e dizer "este é mesmo o caminho", acendendo suaves tochas que iluminam a geração de uma filosofia.
"[...] Não é fácil definir o que faz que uma vida tenha essa qualidade estética ou poética que lhe dá, por assim dizer, a grandeza de um romance. Não é a felicidade nem o sucesso, nem o caráter extraordinário dos eventos; uma vida pode ser uma série de fracassos, mancadas e tristezas, pode também ser trivial e, no entanto, valer a pena ser contada.
Talvez a qualidade poética de uma vida que desperta o aplauso esteja na sensação de que seu protagonista foi animado por uma obstinada fidelidade ao desejo: seja qual for a distribuição das cartas pelo acaso ou pelo destino, ele jogou bem porque jogou sem medo de jogar.
Na hora de nos despedir de alguém que nos é querido, choramos nossa perda, e é normal que seja assim. Mas deveríamos festejar, quando der, a 'beleza' de sua vida. E chorar, quando for o caso, as vidas que se perdem não pela morte, mas pela morte-sem-vida - as vidas, em suma, dos que não conseguiram ser atores de suas próprias vidas."
...
Quero ser ator mais uma vez ao pôr-do-sol, pequeno.
Talvez por fazer o caminho mais comprido, acabei imaginando que você não estaria lá, frio e escuro, e eu fui-me enfiando em mim mesmo, crente de que no mundo, ou ao menos nesta cidade, não se contariam dois, mas um só louco.
Mas você está lá, no topo, erguido e esguio, e meu lado sozinho ficou de ciúme, como tivesse perdido o pôr-do-sol só para você.
Todo mundo sofre muito igual, aquele lenga-lenga bobo, desabafo aqui, terapia ali, gente que gosta de perder tempo e colecionar clichês. Sair para arrasar? Mostrar que está muito feliz sozinho? Repetir incansavelmente que depois da desgraça é uma pessoa muito melhor e evoluída? Ou, pior, dizer que é indiferente a tudo que passou?
Os grandes problemas existenciais, os de real valor, são resolvidos com o travesseiro, guardião secreto e íntimo das verdades que nunca sairão de nós. Isto é, qualquer comunicado público é um buraco no espírito. Superar algo ou alguém é apenas um capricho egoísta, ornado de discursos bestas e decretos de perdão. Se soubessem o quanto é especial preservar um ódio discreto sobre determinadas coisas, sem amargura ou desejo de vingança, apenas um não-querer-negar ao coração o direito de bater contrário ao que um dia lhe fez sofrer. "Ah, mas tudo faz parte do aprendizado da vida." Ninguém precisa contrair um tumor para melhorar como pessoa; ou você deseja ter um câncer para dar valor à vida?
O resto é a mediocridade se reunindo para beber e disfarçar a vergonha de ser apenas mediana num espetáculo de emoções muito mais grandiosas. Sorte que alguns ainda sabem vivê-las, de maneira, digamos, encantadora e inquietante.
"Um homem com rancor ameno e gentil fala aos corações de maneira mais clara e direta, porque não disfarça o gosto amargo da dor com o tempero artificial da compreensão eterna."
"Enlouquece-me a idéia de que as coisas mais momentosas possam realizar-se, de que os homens pudessem todos ser felizes um dia, de que se encontrasse uma solução para os males da sociedade.
Contudo, não sou mau nem cruel; sou louco e isso dum modo difícil de conceber."
Fernando Pessoa
***
Reencontrei-me comigo mesmo justamente porque passei a noite lendo sobre um que foi muitos. Sou reflexo de pessoas, e não sou uma específica. Sou todas conjugadas. Vivem em mim com suas emoções próprias, suas luzes próprias, bondade, maldade, vontade, vertigem, sou a noite acordando sem saber em que lua estará.
Sou ninguém que sendo ninguém acaba sendo alguém. Sou o que não quer ser, e por querer já é.
Sou mais complexo que sua vã filosofia de boteco e paz universal.
A cidade amanheceu congelada. Enquanto as pessoas ameaçavam os primeiros sinais vitais, eu me admirava com a beleza do lago glacial que se formou no campus da USP esta madrugada, exalando sua névoa branca e envolvente. Aproveitei para recordar o acontecido de ontem, no LeCafé, quando eu e Rica contávamos anedotas sobre moradores desta cidade decrépita.
O sabor de um boato não se compara aos prazeres ulteriores. Perdoem-me os moralistas, mas contar boato é fundamental, um alongamento do espírito. Ainda mais quando o espírito é agudo e sabe rir-se de si mesmo, rir-se de quem ficou, de quem partiu, de quem juntou, de quem quebrou. O propósito de um boato é sempre a eternidade. Mesmo que esta dure uma xícara de café.
***
É fácil reconhecer um escritor falido. Primeiro, ele apenas escreve contos. Ah, e ele sempre está terminando um conto. Aliás, ele sempre informa o nome do conto que ele está terminando. Na verdade, trata-se de um indivíduo que escreve ligeiramente bem, mas que está longe de qualquer teoria literária. Por isso vive escrevendo contos que ninguém nunca lê. "Orgulho", "Vaidade", escolhe sempre um substantivo bem extenso e apoteótico para designar sua obra limitada e medíocre.
Existe um tipo de escritor ainda pior. Aquele que está "quase publicando". Você o indaga sobre sua produção, e ele responde que ela está quase saindo, "em breve". Mais criativo que o outro, mas não menos indisciplinado. Na verdade, ele já foi o primeiro tipo, só que envelheceu demais. Funciona em blogue, mas seria um desastre em livro. Dele, você só lê "trechos". Não vai publicar nunca, a não ser que pague. Ou escreva.
***
Vou pegar alguns filmes antigos para ver se não penso no final de semana.
- E quem você é para ter tanta certeza, moleque?
- Não me chama de moleque, sou mais adulto que você.
- Mais adulto? Não se entregar é ser mais adulto?
- É! Hoje em dia, é.
- Moleque!
- O que você queria, nem te conheço direito.
- E nem quis conhecer.
- Como você pode dizer isso?
- Não percebe o quanto é egoísta?
- Não.
- Percebe-se.
- Percebe-se uma ova.
- Sabe o que é pior para mim? Saber que, apesar de tudo, você é uma pessoa boa.
- Está sendo irônico?
- Não, só estou dizendo que é mais fácil superar quando o outro é um filho-da-puta. Assim, como eu.
- Você fala demais, mas não é um filho-da-puta.
- Minha mãe agradece.
- Começou com a graça, por isso a gente não tinha nada a ver.
- Não me venha novamente com o seu nada a ver, acabo sentindo vergonha por você.
- Por mim?
- Sim, por você.
- E por quê?
- Olha para mim...
- Estou olhando, porra!
- Acha que uma pessoa como eu desistiria por um motivo besta?
- Você mesmo disse ter desistido antes.
- Antes nunca gostei tanto quanto agora.
- Pois bem, eu não gostei mais de você agora do que antes.
- Ufa, uma sinceridade!
- Você me obrigou.
- Este é o problema, é preciso obrigá-lo a dizer a verdade.
- Você está mudando minhas palavras.
- É um dom, sabia que eu sempre fui bom com elas?
- Nunca achei grande coisa.
- E não te culpo, sabia?
- Como assim?
- Diga a um grande músico que sua música não tem valor que ele logo saberá que teu ouvido está entupido.
- Acho seus textos chatos, não tenho paciência, não consigo entender, é muita poesia, é muita enrolação. A vida é prática, é fato.
- Por isso deixei você ir, sabia?
- Mas nem fala mais comigo.
- É só para não me envergonhar por você.
- E continua com esse papo...
- Saber que eu me juntei com alguém que se juntou só para ver até onde tudo ia dar.
- É um erro?
- É uma molecagem.
- Ah, você já me encheu.
- Só uma coisa antes de ir.
- Diga.
- Um dia você vai olhar para trás e sentir falta da poesia.
- Olha bem para mim. Acha que um dia vou precisar dela?
.
.
.
Estou esquentando o corpo para iniciar, esfregando as mãos uma na outra para ter coragem. Agora me lembrei de que houve um tempo em que para me esquentar o espírito eu rezava: o movimento é espírito. A reza era um meio de mudamente e escondido de todos atingir-me a mim mesmo. Quando rezava conseguia um oco de alma - e esse oco é o tudo que posso eu jamais ter. Mais do que isso, nada. Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu - a meu mistério.
Por que é errado matar trabalho para escrever se ele caso possível me matava também?
Gosto de respirar, pensar que me emociono.
E o horóscopo todo ano vem com a mania de dizer que estou numa fase de revisão pré-aniversário. Parece até que tenho prova. E nisso acabo me obrigando a atender ao desejo do zodíaco, recapitulando casos bons e maus que aconteceram até hoje.
Na revisão vi que perco tempo demais aconselhando amigo. Talvez eu devesse criar uma listinha com frases prontas e protocolares que me servissem de roteiro na hora de confortar um coração abatido: "Vai dar tudo bem", "Ela não te merece", "Você vai dar a volta por cima". Mas eu sou peçonhento e sempre acabo apelando para o lado negro: "Acredita em vudu?" ou "Ele está olhando para cá, se joga em cima de mim e me dá um beijo, gata". Nunca fui de conselhos baratos.
Também nunca fiz vudu especialmente para ninguém. Costumo pegar as Barbies da minha irmã. Ah, tudo viado mesmo!
Vou aproveitar as férias de julho para viajar. Um lugar frio onde eu possa vestir roupas bonitas. Aproveitar e ler os "novos autores". Espero que os concursos que estão por vir também me reconheçam como um dos tais. Também quero ter o direito de morrer de fome.
Imagina só uma vida de entrevistas para Adriane Galisteu, coquetéis de lançamento e viagens bancadas por universidades sucateadas. Decadence avec elegance.
Eu, quase no bico do penhasco para completar 23 anos, voltei a usar aparelho nos dentes. Lembra algum filme de terror metalingüístico de Wes Craven em que o assassino, após morrer com dez tiros na cabeça, volta para o último susto. É a adolescência e seu último grito.
Falando em terror, deu saudade de ver filme de vampiro. Comecei com aqueles que passavam na sessão da tarde e que traziam um Jack Bauer ainda menino pagando de chupador. Depois passei para obras mais sofisticadas. John Carpenter e os filmes inspirados nos livros de Anne Rice. Boa época em que Kirsten Dunst não soltava gritinhos histéricos nos braços do Homem-Aranha e Tom Cruise não comprometia a imagem de Lestat com suas neuras científico-religiosas.
Bem, vampiros também envelhecem. Nem sempre muito bem.
***
Momento Reflexão no MSN
Ele: Você não quer mais teclar comigo?
Ele: ...
Ele: Hein?!
Ele: Responde! Não quer mais teclar?
Eu: Pensei que meu silêncio fosse auto-explicativo.
Teve Virada Cultural em Ribeirão e eu quase estendi um colchão no teatro. Podia haver mais eventos do tipo. Neles me dou conta de que existem pessoas diferentes a se conhecer. Pena que ontem ficou só no olhar. E de olhar eu entendo. Sinto pela nuca alguém me observando e agilizo em corresponder. E eu fixo, fixo mesmo, de fazer meu olho encravar até envergonhar a outra parte e eu pensar comigo "ha-ha-ha, venci". Sim, tenho dessas infantilidades.
E ontem me lembrei de uma frase antiga: "Inteligência é afrodisíaco."
O que mais me deprime é ver um talento desperdiçado. E eu faço o possível pelos talentos que encontro por aí nesta vida. Nem preciso conhecer muito bem a pessoa, se é boa gente, se é dedicada e tal. Tem talento, então pronto, algo deve ser feito, se é que o talentoso já não o faz. Há algumas dádivas misteriosas neste mundo, e antes conduzi-las à estrela que prendê-las ao calcanhar de um juiz tolo e mundano, que dispara verbos de censura ao abençoado.
Machado de Assis precisou de um empurrãozinho de um escritor famoso em sua época, Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um Sargento de Milícias. Me lembra o professor de literatura, depois de manifestar sua paixão pela obra do Bruxo, dizer que, mais gênio que Machado, só aquele que entendeu Machado pela primeira vez. E este foi Manuel, que viu naquele menino mulato e tímido, sem muita prática ainda (o esforço dos médios), o futuro da maior letra já escrita neste chão.
Por isso, posso ser mal, posso ser grosso, posso ser arrogante, mas se é para ajudar um talento a evoluir sou todo ajuda, apoio e conte-comigo. Interesse? Nunca houve, nem há de haver. Se espero gratidão? Ah, se soubessem as vaidades de um talentoso! Não raro esquecem olhar para trás e cumprimentar os degraus debaixo. Mas ingratidão nenhuma aposenta o orgulho íntimo de ver surgir, graças à sua intervenção, um brilho intenso entre os opacos.
Agradeço por poder viver entre pessoas que parecem ter recebido um dom. Agradeço mais ainda por saber reconhecê-los, e por me sentir sentinela deles.
De repente o futuro abriu portas. Gosto de deitar na cama e ficar encarando o teto, imaginando o que está por vir nos próximos 10, 15 anos. "Estou meio torto, mas ainda estou direito." Não me arrependo de nenhuma luta que travei. Todas foram válidas e pediram coragem, por mais que eu saísse de estúpido de algumas delas. A estupidez muita vez é necessária para evitar que manchem seu amor próprio com a tinta da humilhação e os olhos da miopia.
Daí o teto me encara e surgem nele olhos e boca. O teto não julga os que deitam ao seu destino imóvel e superior. Ele é apenas um companheiro, um confidente de assuntos entre as quatro paredes, suas inimigas de sustentação e obstáculo. O teto é a versão sem estrelas e sem firmamento do céu dos apaixonados.
Entre mim e o Teto
- O que teto tem a dizer?
- Teto não diz muito, telhado diz mais, competindo com as estrelas, que dizem sem parar.
- Mas quero que tu digas, teto, porque és tu que vela meu sono e acorda comigo.
- A vantagem do teto é que este também dorme sobre a tua cabeça, e abaixo da briga eterna de telhados e estrelas.
- Decerto perdeste o teto!
- Ora, direis, ouvir estrelas?
- Então por que acordas quando te encaro? Por que não continuas dormente e isento de mim, se já não tens nada a dizer?
- Ora... porque, quando tu me olhas, arrepio pensar que teu desejo fosse querer-me uma janela aberta.
- E se fosse querer-te assim? Tens medo? Tens ciúme? Ó, teto, que emoções baixas para a tua altura!
- Tu tens muito a aprender, garoto forte que se deita e me encara. Muito, muito a aprender. Pouco do muito, e que te adianto, é aprender que, para o futuro, mais vale um teto que se suporte a mil janelas que não dão a nada.
- ...
- Agora durma, garoto, sob este teto, sob esta telha, sob este céu estrelado.
Ultimamente me sinto acolhido. Não há mais segredos na família e é como se eu tivesse engolido o Sol de tanta luz que sai de mim (ah, que metáfora meiga). A liberdade luz e contagia.
Faz bem planejar os estudos e perceber que o lirismo voltou. Pós-graduação é uma certeza para quem sabe dissertar, mas são as aulas de francês o meu novo amor. Estou irritado no meu vigésimo ano de inglês (rs). Língua pobre, gramática pobre, não dá tesão algum. Por isso é a língua mundial, porque o mundo, que é a média do Universo, é medíocre. Já o francês é musical, cadente, riquíssimo. Fazem biquinho porque podem esnobar. Tudo bem que Schopenhauer dizia que o alemão era melhor, mas parece que tal língua arranha a garganta pra tirar ranho. (rs) Ou serão apenas memórias de Hitler?
O importante, contudo, é criar. E por ora farei isso na língua de Portugal que o Brasil colonizou. A professora de inglês disse que eu gosto do português porque é um idioma difícil. E quem disse que gosto de coisinha fácil? Tem gente que desce aqui querendo paz e aposentadoria. Tem gente que morre como vem, só que mais velho e estúpido. Eu quero transformar alguma coisa!
Bem, o último que disse isso virou cabeleireiro.
Não é de espantar que tudo já tenha sido dito. No entanto, nem todas as mágicas foram usadas para dizê-lo, e eis o grande frescor da criação. O belo é buscável e atingível de muitíssimas maneiras, até dentro de camisas-de-força como o inglês, daí o lirismo de sua literatura. Almas elevadas nascem em todas as partes do mundo, e não é a falta de língua que as mantém de boca fechada.
Talvez a curto prazo você só precise de boas companhias ao seu lado, tomando cerveja e falando vagamente da vida. Sim, desse modo as estações passarão agradavelmente por você, levando suas folhas ora verdes, ora secas.
Só cuidado para elas não te levarem também.
...
Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.
Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar,
A cegar, a escurecer.
Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.
Hoje andei pelo centro da cidade. Fiz o que tinha de fazer e quando vi tinha um tempo sobrando. Então resolvi aproveitar mais a manhã entrando nas Lojas Americanas para comprar chocolate.
Lá, bem próximo à entrada, no canto esquerdo, um vendedor fazia a demonstração do funcionamento de um aparelho de som para um casal abraçadinho, desses que aproveitam as iniciais do amor. Ele, o vendedor, franzino e de aparência meio roceira, usando a camiseta pólo vermelha, uniforme da loja, alisava constantemente o aparelho, como quisesse dar carinho à coisa posto invejasse os amantes, apertava seus botões, falava, falava, falava, não parecia parar de falar, enquanto o casal se apertava ainda mais um no outro, calculando o custo da felicidade e da música eterna.
Eu estava a algumas gôndolas de distância, entre uns cabides de roupa. Fiquei parado, observando. Tive ligeira vontade de me aproximar e perguntar como ele estava, se se lembrava de mim. Mas algumas lembranças morrem no acanhamento da infância. Fiquei assim, de longe, relembrando, recompondo algumas cenas, com ternura que nem os meus mais chegados entendem como nasce de mim.
Éramos meninotes na escola. Ele tinha fama de mentiroso e era chato, muito chato. Posto que naquela época eu era um chato e meio, acabamos amigos. Todos os trabalhos fazíamos juntos. Fizemos juntos a fantasia de carnaval para participar do concurso da escola (ele ficou engraçado enfiando a magreza na fantasia de presidiário). Crismamos juntos (quanto eu discuti com o bispo depois de ele ter chamado a minha atenção por eu ter limpado a testa por causa do "óleo santo" que ele passou em mim; sofria de espinhas, não podia correr o risco). Assim ficamos amigos; ele contando das inúmeras meninas que ele beijava (eu sabia que não havia nenhuma), enquanto eu só queria ser o melhor aluno do mundo, disciplinado e chato.
Por um instante eu o observei. Imaginei em que ponto nossos caminhos se bifurcaram. Se foi no último dia de aula ou na formatura que ele não compareceu por falta de grana. Era um grande amigo que não é mais. Chato e mentiroso, mas andou comigo um bom trecho, durante o qual cada um descobriu no outro seus maiores fantasmas.
Não era saudade, por isso fiquei de longe, mirando fixamente, apaixonadamente, como em gesto de gratidão imperiosa, sentindo em mim, tensa e particularmente, a emoção das dores que jamais se cumpriram.
Ele não vendeu o aparelho de som. E nem o casal era tão apaixonado.
Gosto de ver aqueles documentários do NatGeo. Um lindo é "O olhar do Leopardo", que acompanha, em Mombo, África, a vida de uma fêmea de leopardo desde seu nascimento, passando pelo afeto e cuidado da mãe até o estremecimento da relação das duas, quando enfim se separam para ocupar solitárias seu pedaço do reino selvagem africano.
E eu fiquei matutando na TV. A natureza vive competindo, mas existe uma lei natural coerente e mágica. No caso dos leopardos, a filha desapontou a mãe, porque aquela não se mostrava esperta na caça, tornando-se uma péssima companhia e comprometendo a segurança de ambas. Por isso, a mãe teve de ir se afastando, para que a filha fosse menos dependente e mais corajosa. Enfim, que aprendesse a sobreviver.
Nesse processo, acompanhamos o sofrimento da filha ao ser rejeitada pela mãe. Legadema, então, passa a andar sozinha pelas savanas, a fugir sozinha, a caçar sozinha. No auge do documentário, vemos a filha de leopardo num gesto admirável do reino animal: na copa de uma grande árvore, sustentada por um enorme galho que se estende feito um braço aberto à noite, ela cuida de um filhote de babuíno (ao mesmo tempo, sua melhor presa e seu maior predador) logo após matar e devorar a mãe dele.
É umas das cenas mais espetaculares e misteriosas já vistas:
Quando vejo algo assim, penso comigo que a vida tem lá sua esperança. Há um instinto maior do que tudo isso que a gente conhece, ou pensa que conhece.
Gigio, se eu soubesse tocar violão, aposto que só tocaria esse tipo de música, sem pretensão maior, só para ficar distribuindo sorrisinhos bregas para quem me ouvisse.
Quando se tem história, é bom escrever. Esbocei um conto muito bom sobre uma pessoa morta no Orkut, cujo profile virou meca de peregrinação de muitos internautas, os quais falam de saudades e desejam boa vida "do lado de lá" em pleno scrapbook da falecida. Aliás, existem até mesmo comunidades que reúnem profiles de gente morta, para facilitar a comoção dos curiosos mórbidos, que se aglomeram para perguntar se "foi acidente" ou "algum doença séria".
Nesse contexto, criei a Cher, "menina que queria ser emo, mas tinha o cabelo muito grosso e crespo mesmo para a chapinha". Fanática por conhecer gente morta no Orkut, um dia é ela quem morre. Chegando ao céu, pede a um anjo esnobe e de cabelos lisos que a permita acessar mais uma vez seu profile, de modo a acompanhar as emoções de quem a perdeu. Concedida a permissão, ela retorna assumindo identidade fake e passa a conhecer de verdade as pessoas que em vida lhe diziam amor. Daí é comigo e meu estilo levemente (ou pesadamente?) irônico.
***
Sinto que, a cada dia, progrido mais na narração. Antes meu pecado era não ter história, embora escrevesse bem. Agora abri minha mente para temas atuais e parece que estou me achando. Também estou abandonando a "escrita impenetrável" e fazendo algo mais pop, ao estilo de Nick Hornby, autor do belíssimo Um grande garoto. Mas ainda sinto que não cheguei "no ponto".
A graça da internet é poder compartilhar estilos. Sou postador das antigas, quando o blog ainda era uma grande novidade, e nesse tempo reuní amizade com muitos escritores e projetos de. Alguns ainda se conectam pelo ICQ e me chamam pelo apelido. Trocamos textos de vez em quando, opinamos, sugerimos. Pensando bem, somos praticamente uma sociedade secreta, de tão longa e obscura. É fantástico o crescimento humano que esse tipo de contato nos proporciona. E não raro aparece algum autor novinho, indo nos seus 16, 17 anos, querendo me mostrar um escrito seu, porque soube da minha fama e da minha paciência. A palavra sempre perdura, e olha que eu nunca publiquei.
***
Ontem, um pensamento cruel dentro do carro: "Viu, não é feio não, mas tem uma cara de pobre. Será que é o cabelo?"
E olha que eu lembro daquela coisa na balada, ambicionando a minha companhia. É, urubu existe!
Depois de uma maratona revisando um material de sociologia em tempo recorde (pronuncia-se a tônica no cor, como em acorde), posso relaxar um pouco.
Estava pensando: o meu trabalho é o estudo de muita gente. Claro que, depois de tantas teorias sociológicas e tentativas de se explicar este abismo social existente no Brasil, a luta de classes etc., é sempre desgastante voltar para a realidade e pensar que você faz parte do sistema, é um alienado e tem culpa, sim, por grande parte da desigualdade horrenda que existe entre ricos e pobres.
É cruel saber como o sistema, mesmo sabendo que a sociedade não comportaria o sonho de igualdade e sucesso irrestrito e indiscriminado, coloca na mente de cada um, por meio da publicidade, principalmente, a idéia de que somos capazes, de somos o que escolhemos ser, de que somos o que compramos, de que tudo depende de nós. Mas a verdade é: faça o que fizer, seu destaque individual depende da diminuição do outro, pois não existe reinado sem plebe, estrela sem manto negro.
Sim, sou alienado. Gosto de roupa de marca e vendi meu rim para comprar meu carro. Curto seriados americanos, em geral ambientados entre burgueses da classe média que vivem suas dificuldades familiares e estripulias sentimentais, carregando aquele sarcasmo quase sempre preconceituoso direcionado às minorias. Neste século, ser inteligente é isto: fingir que não se importa com os problemas sociais e fazer piadas sobre eles, de modo a abafar os suplícios de quem sofre com risadas que fingem despertar a "consciência" nas pessoas.
Consciência? Só se ela viver no umbigo.
Todo mundo com seus problemas pequenos, sofrendo suas dores pequenas, lutando para ser, a cada dia, mais pequeno. Eis o mundo, que só cresce em quantidade de cabeças pequenas.
Dizer que estou rindo à toa seria demais. Mas que estou achando graça... ah, isso estou sim!
Só para dizer que, aconteça o que acontecer, não preciso de muleta ao meu lado. Respeito o tempo meu, que um dia foi tempo nosso, sem mancar nas horas ou tropeçar nos juízos. Coração é peça rara, e o meu não passa de mão em mão.
Estou lendo um livro bastante oportuno. De profundis, de Oscar Wilde. É um desabafo de um escritor que acabou na prisão por conta de uma "amizade íntima" que o deixou seco. Impressionante como algumas pessoas têm essa capacidade de secar outras. Pena que isso só fica claro quando se está seco.
E olha que não creio que tenha a ver com caráter. Há muito caráter bom que seca. É mais natureza que disposição. Como também é verdade que nem todos sabem amar. Dizem que cada um tem seu jeito, mas o que acontece é que alguns jeitos não se juntam ao amor. Passam longe, revoando sobre as copas altas. Tem-se, apenas, um aroma agridoce que a princípio desperta alegria, mas que logo bate asas e vai embora, talvez para se juntar ao bando ou procurar comida mais farta e fresca.
A dor, para quem sabe sofrer, é bela e inspiradora. Estou contente por mim. Não se deve ir atrás dos pássaros que vão. Convém fazer ninhos melhores para atrair os pássaros cuja alma se deixa prender aos galhos. Shakespeare disse algo assim, usando jardins e borboletas. Não importa o poeta, dá-se sempre a mesma flor da vitória.
Mas uma coisa é certa: tenho excelentes amigos e cumpre a mim não ser displicente com eles. O mesmo com a família, de quem me afastei para satisfazer vaidades de urubu. E é pequeno o que se precisa fazer para agradar pessoas que gostam de verdade de você. Passar uma tarde com a avó, deixando ela contar sobre a meninice de seus netos, que são seus filhos mais próximos e ardentes. Dar ao avô quase surdo um livrinho de palavras-cruzadas. Falar algo bom do pai, fingindo não saber que ele está por perto, só para enchê-lo de alegria branca. Dar um abraço na mãe num momento inesperado, como quando ela está atrapalhada por quase nada na cozinha, fazendo ela perceber que os tomates esperam e nós não. Azucrinar bastante os irmãos, porque de todas as maneiras se faz saudade com o sangue.
A vida é a nossa grande árvore. As raízes dela explicam por que não vamos embora mesmo com as trevas em volta.
O tempo se encarrega de trazer a luz, e os galhos verdinhos voltam a sacudir-se para anunciar tempos novos e pássaros melhores.